“Conheço a minha sina”. Gostaria de ter a mesma coragem do filósofo ao dizer isso. Mas eu também sei onde vou chegar, portanto, escrevo mediante uma promessa de um dia olhar para trás e analisar como progredi. Porque creio que todos os pensadores, fossem revividos e tendo somado alguns anos de existência com uma “alma” intacta, teriam vergonha do que deixaram para trás em escrito. Pois eu também, mero mortal, não posso deixar de me envergonhar a cada dia que me passa, graças a Deus. Haja algum filho da puta maluco que se interesse, meu mais sincero obrigado pela mais instrospectiva intimidade.
Entro mais uma vez na merda do Spotify. Vejo a playlist dela ainda salva na minha biblioteca, apesar de não estar pública e eu não tê-la salvo. Abro. O que está lá? Uma música adicionada, em especial. Ouço. Interessante. Infamemente interessante. Não lembrava do filme em que ela é tocada. E não lembrava ter sido tão idiota a vida inteira. Esse é o meu problema, nunca lembrar de minhas recursões comportamentais decadentes, e, em especial, a de comprar tão facilmente a ideia de que posso ser enganado sem tormento — de se autoenganar achando ser esperto demais para não ser solícito nas investidas persuasivas alheias, curioso com o que quer se tomar. Mas isso por um só momento, infelizmente. É efêmero, pois, acomodado pela segurança de estar sendo “genuinamente amado”, logo se dá lugar a um indivíduo chato, ranzinza, ressentido. E esse indivíduo não sabe que a mentira sempre foi a maior aliada da humanidade. Esse indivíduo acredita na “verdade”, e quer algo real e sincero, mesmo quando sabe no fundo que isso não passa de seu autoengano. Ele tem medo. Mas afinal, ela fez ou não aquilo? Definitivamente irrelevante. Melhor pensar na ausência de autocontrole ao gerir a relação, ou na falta de masculinidade ao assumir o papel de namorado — não nisso. Melhor pensar em como é exatamente por esses mecanismos que temos sistemas tão poderosos funcionando a todo vapor na sociedade. A política, a economia, a guerra, a religião… Todas narrativas uma vez contruídas com base em uma bela mentirinha. Podemos falar do capitalismo? É meio clichê… Mas vejamos esse conceito de “vender”. O que se vende, majoritariamente? Em setores primários, onde se produz recursos essenciais, produtos essenciais. Mas quando não há essência de significado material? Quando não serve para a sobrevivência, estende-se as necessidades espirituais no luxo. E o que é o luxo senão uma vaidade falsa? Nada além de breve conforto. Mas é em torno disso que se estabelecem governos, monopólios e oligarquias, através do consumo desenfreado do que se paga em valor monetário ou vital, em grande escala. Através de setores terciários, onde se adquire com orgulho mercadorias de marca, onde se arrecada os impostos da maioria enquanto a escraviza sem que assim ela se sinta — outra mentira bonita: não há mais escravos… Triste? Não mais que o término com aquela pessoa que você tanto “ama”, que nesse exato momento já deve estar entretida com outro alguém, mesmo depois de tê-la considerado única e exclusivamente sua! Como seres humanos são errôneamente egoístas e tragicamente altruístas… não há um consenso de quais tábuas obedecer! A lição: todos mentem, de todas as maneiras, em todos os lugares. “Não existem fenômenos morais, mas apenas interpretação moral dos fenômenos”. E mesmo quando não sabem disso, pior e comum, mentem constantemente a si mesmos — e acreditam em um “si mesmo”. Reconhecer isto é abrir mão de uma ilusão eficaz, mas não por isso necessária. Só assim pode-se ser finalmente verdadeiro, o que quer que isso signifique. A felicidade, por exemplo, é algo que se adquire pela escolha de mentir sozinho sobre as coisas boas que existem em sua volta agora. É uma mentira ruim?